Belém [II]
Vamos a Belém: aí acharemos o Coração de Jesus Menino que reclama nossa confiança.
O pecado produziu em nós todos a cegueira do espírito, a insensibilidade do coração, a fraqueza da vontade; mas consolemo-nos: eis que está, na gruta de Belém, um Coração que vem curar a cegueira do nosso espírito por sua luz, a insensibilidade do nosso coração por seus atrativos, a fraqueza de nossa vontade por sua força. E qual é este Coração? É o coração mais terno, mais compassivo, mais misericordioso que se possa achar; é o Coração de Jesus. Antes da vinda de Jesus Cristo, o mundo estava cheio de trevas, porque estava cheio de pecados. Toda carne, diz o Espírito Santo, tinha corrompido seu caminho (Gn 6,12). Todos os homens tinham violado e corrompido a lei da razão; viviam como brutos e não pensavam senão em gozar dos bens e prazeres terrestres, não cuidando de modo algum dos bens eternos. Mas, graças à divina misericórdia, eis que uma luz brilhante aparece para esclarecer aqueles que habitam na região tenebrosa da morte (Is 9,2). Esta luz é Jesus, que é chamado a luz das nações (Lc 2,32). Ele é a luz que brilha nas trevas e ilumina todo o homem que vem a este mundo (Jo 1, 9). Eis aí o Mestre prometido que devia tornar-se visível a nossos olhos para nos ensinar o caminho da salvação, isto é, a prática das virtudes; eis aí o Mestre que devia nos instruir, não somente por suas palavras, mas principalmente por seus exemplos. Ele nasceu: está na gruta de Belém, que chamaremos, à imitação de São Bernardo, a Escola do Coração de Jesus: Schola Cristi. Digamos-lhe: O Coração de Jesus, esclarecei-nos. Mas o homem pecador é sempre tímido; para lhe inspirar toda confiança e atraí-lo, o Deus de bondade quis manifestar seus atrativos sob a forma de um menino. Por que, quem poderia ter medo de se aproximar de um menino? pergunta São Tomás de Villanueva. Os meninos nada têm de formidável; só respiram doçura e amor; quase não sabem assanhar-se em cólera, e, se acontece que se irritem, oh! quanto é fácil aplacá-los! Basta apresentar-lhes um fruto, uma flor, fazer-lhes uma carícia, dizer-lhes uma palavra afetuosa; logo perdoam e esquecem todas as ofensas que lhes fizeram. Assim, uma lágrima de arrependimento, um movimento do coração, bastam para aplacar o Coração do Menino Jesus. “Ó Deus de misericórdia, exclama aqui Gerson, dirigindo-se ao divino Salvador, quisestes ocultar vossa suprema sabedoria sob a forma dum menino que não sabe falar, a fim de que ela não nos acusasse de nossos pecados; quisestes ocultar vossa justiça sob a forma de um menino humilíssimo, para que ela não soubesse nos condenar; quisestes ocultar vosso poder sob a forma de um menino fraquíssimo, para que ele não tivesse força de nos punir!” O Coração de Jesus nos traz não somente luz brilhante e atrativos irresistíveis, traz-nos também torça invencível. Vendo, com efeito, que o homem, ferido pelo pecado, estava tão fraco, que era incapaz de resistir a seus inimigos, que tez o Verbo eterno? De forte fez-se fraco; revestiu-se da fraqueza corporal do homem, a fim de obter para o homem a força espiritual que lhe é necessária para vencer os assaltos da carne e do inferno. Ei-lo então feito menino, tendo necessidade de leite para sustentar sua vida, e tão fraco que não pode mover-se por si mesmo. Ele tomou nossa fraqueza para nos comunicar sua força. Se, pois, de um lado, nossa fragilidade nos espanta, de outro, quanto o Coração de Jesus nos anima! Porque Davi nos declara que Deus é levado, pela bondade de sua natureza, a nos salvar, a nos preservar da morte (SI 67,21). A confiança, portanto, nos faça sempre dizer com o Apóstolo: Tudo posso, não por minhas próprias forças, mas pelas forças que meu divino Redentor me dispensa em virtude de seus merecimentos (Fl 4,13). Alentai-vos, meus pobres filhos, diz-nos o Coração de Jesus; em qualquer estado que vos acheis, vinde a mim, sem temor algum (Is 35,4). Se estais nas trevas, eu vos esclarecerei, porque sou vossa luz; se sois fracos, eu vos fortificarei, porque sou vossa força; se vossos corações foram até aqui insensíveis ao amor de Deus, eu os inflamarei, porque vim apresentar a vossos olhos meus divinos atrativos, a fim de cativar vosso amor.
Prática
Minha confiança no Coração de Jesus será de agora em diante sem limites; cada dia manifestar-lhe-ei as misérias de minha alma, e terei cuidado de pedir a Maria e São José para serem meus intercessores junto dele.
Afetos e orações
Ó Coração infinitamente bom de Jesus, não ousaria aproximar-me de vós, manchado como estou de tantos pecados; mas já que me convidais com tanta bondade, não quero resistir à voz do vosso amor. Não, às minhas faltas não quero ajuntar a ingratidão; depois de vos ter voltado as costas tantas vezes, não quero, por falta de confiança, recusar render-me ao doce convite que vos dignais fazer-me. Mas sabei que sou extremamente pobre, nada tenho, absolutamente nada para vos oferecer, senão meu miserável coração; e este coração vo-lo apresento hoje. É verdade que outrora ele vos ofendeu, mas hoje está penetrado de dor e arrependimento. Sim, Coração adorável, arrependo-me de vos haver contristado. Eu o confesso: sou o bárbaro, o traidor, o ingrato que vos causou tanta aflição na lapa de Belém, mas vossas lágrimas são minha esperança. Ó Pai eterno, se mereço o inferno, olhai as lágrimas de vosso FiIho inocente, que vos implora meu perdão. Nada recusais aos pedidos de Jesus; atendei-lhe então, pois ele vos pede que me perdoeis. Ah! meu Jesus, de vós espero o perdão de meus pecados; mas isto só não me basta: é necessário que me concedais ainda a graça de vos amar. Agora que estou a vossos pés, abrasai-me inteiramente no vosso santo amor, e apegai-me a vos; mas apegai-me tanto, que de vós não me possa mais separar. Eu vos amo, ó meu Deus, feito menino por mim, mas muito pouco vos amo: quero amar-vos muito e esta graça espero de vós. Dignai-vos receber meu coração; eu vo-lo dou para ser propriedade vossa, não querendo mais que ele seja meu. Mudai-o e guardai-o para sempre. Não torneis a mo entregar, para que não me suceda trair-vos de novo. Ó doce Virgem Maria, Mãe do divino Menino que me traz seu Coração, vós sois também minha Mãe; nas vossas mãos deponho meu pobre coração, apresentai-o a Jesus. Se vós mesma lho apresentais, ele não o recusará. Apresentai então meu coração a Jesus, ó minha Mãe, rogando-lhe que o aceite.
Oração jaculatória
Coração misericordioso de meu Jesus, tende compaixão de mim.
Exemplo
Em 13 de novembro de 1857, uma piedosa mãe de família caiu gravemente enferma de febre perniciosa. Durante três semanas o médico empregou os remédios mais enérgicos sem feliz sucesso. Declarou enfim que não havia mais esperança de cura. Em tão dolorosas circunstâncias, um só consolador restava aos amigos da enferma: muitas vezes quando uma crise mais violenta fazia suspeitar o derradeiro momento, todos os membros desta aflita família se reuniam diante de um painel do Sagrado Coração, para rezarem as ladainhas deste adorável Coração, a esperança dos moribundos. A enferma, de seu lado, fixava com amor seus olhos na santa imagem, quando a febre lhe deixava o livre uso de suas faculdades. Em 7 de dezembro, a piedosa mulher, sentindo exaustas suas forças, reuniu em torno de si os filhos, e dirigiu-lhes os derradeiros e maternais conselhos. A noite seguinte foi uma longa agonia. Em 8 de dezembro a angustiada família terminava uma novena ao Coração de Jesus pela intercessão de Maria Imaculada. De manhã, pelas seis horas, a doente, desejando unir-se ao santo sacrifício que se celebrava por ela, fez que a levantassem um pouco no leito; mas sua fraqueza era tão grande que sua cabeça caiu; em vão as pessoas presentes procuram sustê-la. “Não vale a pena, responde a moribunda, eu já me vou, sinto que está acabada minha vida”. De repente é acometida de dor agudíssima; mas esta crise era o momento escolhido pelo Coração de Jesus para fazer brilhar sua virtude onipotente, porque a enferma ergueu-se clamando: “Estou curada!” As pessoas que tratavam dela julgaram a princípio que era um acesso de delírio; mas apenas se veste, ela vai lançar-se aos pés do painel do Sagrado Coração de Jesus e diante da imagem de Maria Imaculada. A surpresa, alegria, admiração de seus filhos, impossível é descrever-se; eles só tiveram lágrimas para agradecerem a Jesus e Maria. Durante muitos dias as visitas se sucederam sem interrupção. A todos os visitantes a feliz mulher ia mostrar o venerado painel, e, indicando com o dedo o Coração de Jesus, dizia: Ele é que me curou. Ela cumpriu contente as condições de um voto que a ligava a este divino Coração; este voto, bem conhecido pelas curas sem número que obtém, consiste em prometer comungar, durante um tempo determinado, na primeira sexta-feira de cada mês.
Messager du Coeur de Jésus.

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