Sagrado Coração de Jesus

Sétimo dia- Mês Sagrado Coração de Jesus

Egito [I]


Vamos ao Egito: ai acharemos o Coração de Jesus carregado dos pecados do mundo

A maior pena de um exilado é ser considerado como criminoso e indigno de morar entre seus concidadãos. Pois bem! O Coração de Jesus quis submeter-se a esta humilhação. Tomando sobre si nossas iniquidades, que nos tinham feito excluir da pátria celeste, não devia Ele sofrer a pena do banimento pronunciada contra nós? Na antiga lei fazia-se cada ano a cerimônia do bode expiatório, que o sumo sacerdote carregava de todos os pecados do povo; depois disto, enxotavam-no para o deserto, como objeto da ira de Deus. Este bode representava nosso Redentor que se dignou tomar sobre si todas as maldições que merecemos por nossas faltas e tornar-se a maldição mesma (Gl 3,13), segundo a expressão de São Paulo, a fim de nos obter a bênção divina.

Considerai então o Verbo divino fugindo para o Egito, e perseguido antes pela ira de seu Pai que pela espada de Herodes. É que Ele quis, não somente tomar a forma de pecador, mas ainda carregar-se de todos os pecados dos homens (Is 53,11), diz Isaias, a fim de sofrer a pena deles, como se os pecados fossem seus próprios. Pensemos aqui que opressão e agonias sofreu o Coração de Jesus Menino, quando assim, carregado de todas as iniquidades do mundo, viu que a justiça divina lhe exigia plena satisfação.

O Salvador via claramente a malícia de cada pecado, pois que, pela luz de sua divindade, conhecia infinitamente melhor do que todos os homens e anjos, a bondade infinita de seu Pai e o direito infinito que Ele tem de ser amado e respeitado; e via-se carregado da multidão inumerável dos pecados que tinham cometido e cometeriam ainda os homens, pelos quais Ele devia sofrer e morrer. O Senhor revelou um dia a Santa Catarina de Gênova a fealdade de um só pecado venial, e esta vista causou-lhe tanto espanto e dor, que caiu sem sentidos. Qual então deve ser a pena do Coração de Jesus Menino, quando, apenas nascido, viu-se na dura necessidade de tomar o caminho do exílio, como outrora o bode expiatório, carregado de todas as nossas iniquidades! Jesus, perseguido por Herodes e pela ira de seu Pai, naturalmente nos faz pensar no pecador assaltado de temores, pungido de remorsos e perseguido pela ira de Deus e por sua consciência criminosa. O pecador traz consigo o temor da vingança divina.
Quando alguém tem como inimigo um homem poderoso, não pode comer nem dormir em paz. Que será ter por inimigo o Onipotente? Aquele que está em pecado, oh! como se espanta quando a terra treme, quando o trovão ribomba! uma folha que cai basta para o espantar. Ele foge continuamente sem que ninguém o persiga: engano-me, é perseguido por seu pecado mesmo. Depois de ter matado seu irmão Abel, Caim julgava que todos tinham as mãos erguidas contra ele para lhe arrancar a vida; e embora o Senhor lhe tivesse dado a certeza de que nenhum mal lhe seria feito, ele não cessou, desgraçado! de fugir de um lugar para outro, como a Escritura nos ensina. Quem então perseguia Caim? Seu pecado.
Além disto, o pecado faz nascer o remorso, este verme terrível, que não cessa de roer a consciência criminosa. O pecador vai ao espetáculo, ao baile, a um banquete, e por toda parte a consciência lhe brada: Desgraçado! Tu estas na inimizade de Deus; se te acontece morrer agora, para onde irás? Esta repreensão interior é um tormento tão grande ainda nesta vida mesma, que, para se livrar dela, já se tem visto criminosos suicidar-se. Um deles foi Judas, que, como se sabe, enforcou-se de desespero.
Oh! que reconhecimento os pecadores devem ao Coração de Jesus. porque, conservando-se puro da mancha do pecado, ele quis, todavia, tomar sobre si todas as misérias que a natureza humana tinha atraído para si em punição do pecado! Sim, para nos salvar, Jesus ofereceu-se voluntariamente a seu Pai em expiação de nossas faltas, e Deus Pai o carregou de todas as nossas iniquidades (Is 53,6).

Prática

Para não sucumbir nas tentações, considerarei, de um lado o pecador perseguido pelos temores e remorsos, de outro, o Coração de Jesus temendo mais as perseguições do pecador que as de Herodes.

Afetos e súplicas

Amadíssimo Redentor, eu sou um desses ingratos que pagaram vosso amor imenso, vossas dores e vossa morte, por ofensas e desprezos. Como, pois, prevendo minhas ingratidões, haveis podido amar-me tão ternamente, e resolver-vos a suportar por mim tantas humilhações e padecimentos? Ai! o mal está feito; mas não quero desesperar. Senhor, dai-me agora a contrição que merecestes por vossas lágrimas; meu desejo é que meu arrependimento iguale minhas iniquidades. Ó Coração cheio de ternura de meu Salvador, Coração outrora tão afligido e amargurado para minha salvação e agora ainda todo inflamado de amor para comigo, eu vos rogo, mudai meu coração, dai-me um coração capaz de reparar os desgostos que vos causei, e amor tão grande como foi minha ingratidão.
Mas sinto já vivo desejo de vos amar; isto vos agradeço, meu Jesus; vejo assim que tivestes a bondade de enternecer meu coração. Detesto e aborreço de todo meu coração os pecados que cometi; quem me dera apagá-los com meu sangue! Agora prefiro vossa amizade a todas as riquezas e a todas as honras. Desejo agradar-vos quanto me for possível. Amo-vos, ó amabilidade infinita; mas vejo que meu amor é muito fraco; aumentai-lhe a chama, dai-lhe mais ardor: ah! devo corresponder a vosso amor por um amor muito mais ardente, pois tanto vos ofendi, e, em vez de castigos, recebi de vós tantos e tão insignes favores. O Bem supremo, não permitais que eu continue a viver na ingratidão, após tantas graças que me tendes feito. Dir-vos-ei com São Francisco: Morra eu por amor de vosso amor, ó Vós que vos dignastes morrer por amor de meu amor! Maria, minha esperança, ajudai-me;
recomendai-me ao Coração de Jesus.

Oração jaculatória

Coração humilíssimo de Jesus, ensinai-me vossa humildade.

Exemplo

O bem-aventurado Geraldo Majella, grande taumaturgo do século XVIII e digno discípulo de Santo Afonso de Ligório, a cuja sociedade pertencia na qualidade de irmão leigo, tinha recebido do misericordioso Coração de Jesus o dom de converter os maiores pecadores. Pode-se dizer que ele tinha maior conhecimento da consciência dos outros que da sua própria. Este irmão encontrou certo dia um pecador recidivo a quem o respeito humano encadeava ao interno, e que não pensava de modo nenhum em mudar de vida. Geraldo o conduziu a seu quarto, e aí, descobrindo-lhe a negrura de sua consciência diante de um crucifixo, disse-lhe: Que! tens animo de ofender teu Deus deste modo! Depois, mostrando-lhe a imagem do Salvador pregado na cruz: Quem fez estas chagas, ajunta ele, senão tu por teus pecados! E quem, sendo tu, lhe tirou o sangue das veias? Neste instante viu-se o sangue correr das chagas das mãos, dos pés e do Coração de Jesus. O miserável, compungido, foi logo lançar-se aos pés do Padre Petrella, referindo-lhe o fato com todos os sinais do mais vivo arrependimento, e permitindo-lhe que o tornasse público. — O amor terno e imenso que Geraldo consagrava a Jesus na Eucaristia, fez-Ihe tomar as mais rudes penitências em expiação dos sacrilégios. Ele usava continuamente do dom de ler nos corações, para ajudar as almas a declararem os pecados que mal entendida vergonha fazia ocultar ao confessor. — Um dia, Geraldo disse a um gentil homem: “Meu filho, viveis no crime, quereis então morrer como réprobo? Ide confessar tal pecado que há tanto tempo escondeis”. — Noutro dia disse a certa mulher: “Minha irmã, como podeis dormir em paz, vivendo na inimizade de Deus? Por que não confessais tal pecado que ocultais há tantos anos?” — Outra vez ainda, disse a uma donzela: “Minha filha, há tantos anos que fazeis confissões e comunhões sacrílegas, e quereis passar por santa! Ide, confessai-vos como se deve, se quereis evitar o inferno”. — Nos dias de confissão e comunhão, Geraldo circulava continuamente na igreja, para desviar do sacrilégio aqueles que se achavam em estado de pecado mortal. Os padres diziam que este irmão convertia tantas almas como dez missionários. Ele se oferecia sem cessar a Deus como vítima pelos pecados do mundo. Quando Majella viu que seu fim se aproximava, pediu como graça ao Senhor padecer as penas que Jesus agonizante sofreu na cruz em seu corpo e no seu Coração. Deus concedeu-lhe o que pedia. Pelo que ouviam-no gemer e clamar: “Sofro o martírio!… Rogai por mim, dizia ele a um padre que viera visitá-lo; rogai por mim, porque sofro muito. Eu estou nas chagas de Jesus Cristo, e elas em mim: sinto todas as penas interiores e exteriores que Jesus Cristo sofreu na sua Paixão”. Este santo Redentorista morreu em 1753 na idade de 29 anos.


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