Sagrado Coração de Jesus

Décimo quarto dia- Mês Sagrado Coração de Jesus

Getsêmani [II]


Vamos ao Getsêmani: aí acharemos o Coração de Jesus cheio de tédio


O Coração de Jesus começou também a sentir grande tédio por causa dos tormentos que lhe eram preparados: Coepit taedere. Quando nos vem dissabores, as delícias mesmas mudam-se em amargura. E donde podia vir a Jesus esta repugnância? Provinha da triste previsão que Ele tinha da inutilidade de sua Paixão para muitas almas.
Nosso Senhor revelou à venerável Águeda da Cruz, que este pensamento o afligiu desde o seio de sua mãe, e foi a maior pena de toda a sua vida: já Ele o predissera muito tempo antes pela boca de Davi: Que proveito tirarei da efusão do meu sangue? (SI 29,10). Para que servirá o sacrifício da minha vida? Os homens, em grande maioria, não farão caso algum de minha Paixão; continuarão a me ofender e a perder-se eternamente, como se eu nada houvesse feito por eles. Esta pena formou o cálice tão amargo do qual Jesus, no Jardim das Oliveiras, rogou a seu eterno Pai o livrasse:
Pater mi, se possibile est, transeat a me calix iste (Mt 26,39).
Em que consistia este cálice? Consistia em ver, de um lado, tantas dores, tantas ignomínias, tanto sangue derramado, uma morte tão cruel e infame, e de outro, tão poucos frutos: Qual será o proveito do meu sangue? Ah: quanto é grande o amor do Coração de jesus para com as almas!
Quanto é grande a compaixão deste divino Coração para com os pecadores! E nós temeríamos não alcançar o perdão, uma vez que lhe o peçamos? Ah! Ele é de tal sorte inclinado a perdoar aos pecadores, que geme por causa de sua perda, e chora quando os vê longe de seu amor, privados de sua graça. Então com ternura os chama, exclamando: Por que quereis morrer, ó filhos de Israel? Volvei-vos para mim e vivei (Ez 18,31). Oh! se os pecadores soubessem com que bondade o Senhor os espera para lhes dar o perdão! Oh! se soubessem como Ele deseja, não puni-los, mas vê-los mudar de proceder, a fim de poder abraçá-los e os apertar no seu Coração! Eu protesto com juramento, diz o Senhor Deus, não quero a morte do pecador, mas sim que se converta e viva (Ez 33,11). Ele chega até a dizer: Pecadores, arrependei-vos de me ter ofendido; e então, se vos não perdoo, vinde e acusai-me de mentira. Mas não, longe de faltar à minha promessa, se vierdes a mim, tornarei vossas almas tão brancas como a neve, ainda quando se tenham tornado pelos pecados tão vermelhas como o escarlate (Is 1,18). Urgido pela mesma misericórdia ele declara formalmente que esquece todos os pecados da alma que se arrepende (Ez 18,21). Com que caridade este Coração tão misericordioso perdoou a Madalena, logo que ela se arrependeu de suas faltas! Com que bondade perdoou ao paralítico, dando-lhe ao mesmo tempo a saúde do corpo! De que bondade usou Jesus principalmente para com a mulher adúltera! Os sacerdotes lha conduziram como pecadora, para que Ele a condenasse… Mulher, perguntou-lhe, ninguém te condenou? — Não, Senhor, respondeu ela. — Pois bem! Nem eu te condenarei; vai em paz, e não peques mais (Jo 8,10-11). Muitas vezes, Jesus concedeu aos pecadores convertidos as graças mais abundantes e assinaladas, que Ele costuma conceder somente às almas de sua predileção. É o que sucede quando, cheio de reconhecimento para com sua bondade, uma pessoa se consagra com fervor e sem reserva a seu amor, como o fizeram São Paulo, Santa Maria Madalena, Santa Maria Egípcia, Santo Agostinho, Santa Margarida de Cortona. O Coração de Jesus manifestou particularmente sua ternura a respeito desta última santa, que tinha antes passado muitos anos no pecado: Ele chegou a lhe fazer ver o lugar que lhe tinha preparado no céu entre os serafins, e enquanto não chegava a hora do prêmio eterno, não cessava de lhe prodigalizar novas graças. Vendo-se tão favorecida de Deus, Margarida lhe disse um dia: Que! Senhor, tantas graças a mim! Já vos esquecestes das ofensas que vos fiz? E o Senhor se dignou responder-lhe: Não sabes que, quando uma alma se arrepende de seus pecados, eu esqueço todos os ultrajes que ela me fez? — Assim já o declara Deus pelo Profeta Ezequiel: Se o pecador faz penitência, esquecerei todas as suas iniquidades (Ez 18,21).

Prática


Vou começar desde este momento vida nova, vida conforme aos desejos do Coração de Jesus. Virá o momento em que não poderei mais. Ai! quem sabe se é chegado o fim dos meus dias? Quem sabe se amanhã viverei ainda? Na hora da morte estarei tranquilo ao considerar que quase não pensei no grande negócio de minha eternidade?

Afetos e súplicas

Coração afligido de meu amadíssimo Jesus, a multidão de minhas faltas torna-me indigno de vossas graças, mas pelo merecimento da pena que sofrestes no Jardim das Oliveiras, vendo todos os meus pecados, concedei-me vossa luz, a fim de que, conhecendo sua malícia, tenha deles, como vós, grande horror. O amável Salvador meu, eu pois, fui o algoz de vosso Coração, e algoz mais cruel do que todos os que vos crucificaram! E este suplício, renovei e aumentei tantas vezes, quantas vos ofendi! Senhor, morrestes para me salvar, mas vossa morte não basta para minha salvação, se, de meu lado, não tenho sincero arrependimento dos pecados que cometi, e não os detesto mais que tudo.
Esta disposição é ainda uma graça que devo esperar de vosso Coração misericordiosíssimo: vós a concedeis a quem vo-la pede; pois bem! Eu vo-la peço pelo merecimento de todos os padecimentos que sofrestes na terra; concedei-me a dor de meus pecados, e dor proporcionada à malícia deles. Meu Jesus, ajudai-me a fazer neste momento um ato de contrição que seja digno de vós. Pai eterno, supremo e infinito Bem, eu, miserável verme da terra, tive a audácia de vos ultrajar e desprezar vossa graça; agora detesto e aborreço sobre todas as coisas as injúrias que vos fiz; delas me arrependo de todo o coração, menos por causa do inferno que mereci, que pela desgraça de vos haver ofendido. Bondade infinita, espero, pelos merecimentos de Jesus Cristo, que me perdoareis, e com o perdão de minhas faltas me concedereis a graça de vos amar. Eu vos amo, ó Deus digno de infinito amor, e quero repetir sem cessar: eu vos amo, eu vos amo, eu vos amo. O que dizia Santa Catarina de Gênova, quando estava aos pés de Jesus Crucificado, digo-vos também agora: Não, Senhor, não mais pecados, não, não mais pecados. Ah! vós mereceis, meu terno Jesus, não ser ofendido, mas ser o único objeto de nosso amor. Meu Redentor, vinde em meu socorro. Minha terna Mãe Maria, prestai-me vossa assistência; só vos peço passar o resto da minha vida no amor de Deus.


Oração jaculatória


Ó Coração de Jesus, ponde termo às minhas ingratidões, ferindo meu coração com vosso santo amor.

Exemplo

Numa paróquia da Bélgica vivia um homem entregue aos mais vergonhosos excessos da embriaguez. Havia mais de 25 anos que ele era motivo de profunda aflição para seus irmãos e irmãs. Em 1804, um zeloso missionário foi pregar naquela freguesia um sermão sobre a devoção ao Sagrado Coração. Os assistentes o escutaram com vivo interesse, mas um entre eles ficou mais comovido que os outros: era o pobre ébrio. Seu coração, que ficava insensível ao ouvir as mais terríveis verdades, abrandou-se pela exposição que fez o ministro de Deus de todas as amabilidades do Coração de Jesus. Ele desfez-se em lágrimas quando ouviu citar estas palavras de Jesus Cristo, revelando seu Coração à Santa Margarida Maria: Os pecadores acharão na devoção ao meu Sagrado Coração a segurança de seu perdão. Meu Coração é oceano infinito da misericórdia. Neste momento, o ébrio sentiu ter achado o que ele não ousava mais crer possível, uma misericórdia maior do que seus pecados, uma graça mais poderosa do que todas as suas más inclinações. Sua resolução foi imediatamente tomada…
Logo depois do sermão, ele foi se lançar aos pés do pregador: “Meu Pai, disse-lhe, muito tenho pecado, mas vós me comovestes o coração; quero confessar-me”. Esta conversão foi tão duradoura quão sincera. Com um só golpe ele desfez todas as cadeias que o prendiam. Renunciou para sempre seus antigos amigos, seus companheiros de devassidão, e não conheceu mais outro caminho que o da Igreja. Comungava ao menos de quinze em quinze dias. A paróquia ficou grandemente admirada com esta mudança. O Coração de Jesus, que tinha operado esta bela conversão, apressou-se a coroá-la; porque, um ano depois, a paróquia recebia a graça da missão. O nosso convertido assistiu a todos os exercícios, não lhe sendo possível ouvir falar do amor de Deus e da ingratidão dos pecadores sem derramar abundantes lágrimas. Durante uma instrução da manhã, ele sentiu o desejo irresistível de ir imediatamente confessar-se e receber a santa comunhão. Por causa dos muitos fiéis que se apertavam nos confessionários, não pôde o pobre homem alcançar o que desejava antes do meio-dia. Tudo faz crer que ele pressentia estar próximo o fim de seus dias. Apenas entrou em casa, ele foi diretamente para o quarto e estendeu-se na cama. Quando foram saber o que ele tinha, acharam-no adormecido no Senhor!… Consideradas as circunstâncias extraordinárias desta morte, não se pode duvidar que nosso convertido tenha ido unir-se ao Coração de Jesus, tão ternamente amado por ele depois da conversão.

Messager du Coeur de Jésus.

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