Sagrado Coração de Jesus

Oitavo dia- Mês Sagrado Coração de Jesus

Egito [II]

Vamos do Egito: ai acharemos o Coração de Jesus destruindo os ídolos do mundo

Dize-me, cruel Herodes: por que mandas matar, por que sacrificas tantos meninos inocentes, para satisfazer tua ambição de reinar? Responde-me: qual é a causa de tuas inquietações? Qual o motivo de teus sustos? Temes que o Menino recém-nascido te arrebate a coroa? Ah! este Rei a quem temes, não veio combater os poderes da terra pela força das armas; veio reinar nos corações dos homens, sofrendo e morrendo por amor deles.

O inferno, que se servia da crueldade de Herodes para fazer morrer Jesus Cristo e aniquilar a obra da Redenção, foi vencido pelo meio mesmo que ele empregou para triunfar; porque a fuga de Jesus veio começar a ruína do império ao demônio no mundo. Refere-se, com efeito, que ao entrar o Salvador no Egito, todos os ídolos desse país foram destruídos. Até então o mundo tinha estado numa noite tenebrosa de ignorância e iniquidade. O verdadeiro Deus era apenas conhecido num só ponto do globo terrestre, isto é, na Judeia. Fora daí, adoravam-se como divindades os demônios, as bestas e as pedras. Por toda parte reinava a noite do pecado que cega as almas, enche-as de vícios, impede-as de ver o miserável estado em que vivem, inimigas de Deus, condenadas ao inferno. Espetáculo bem triste para o Coração tão bom do divino Messias que acabava de nascer!


Também quis nosso Salvador começar desde sua infância a despojar o demônio do império que ele tinha sobre o homem, como Isaias havia predito (Is 8,3). Jesus desceu então ao Egito para abater esse tirano, e livrar os homens da desgraçada escravidão na qual gemiam, a fim de que, saindo das trevas da morte e sacudindo o jugo odioso que os oprimia, pudessem conhecer a estrada da salvação e dar-se ao serviço do seu verdadeiro e legítimo Senhor, que os amava como pai, e, de escravos de Lúcifer, queria fazê-los filhos seus muito amados.


Isaias tinha predito também que na vinda de nosso divino Redentor, a terra deserta e sem caminho se regozijaria e floresceria como o lírio (Is 35,1). O profeta falava assim dos idólatras, em cujo número estavam os egípcios: seu país era como uma terra deserta, onde não se achavam homens dignos deste nome, nenhum adorador do verdadeiro Deus, mas somente escravos do demônio; era uma terra deserta e sem caminho, pois que estes desgraçados ignoravam o caminho ao céu. Oh! como o Egito, esta terra desgraçada, deveu regozijar-se, sentindo vir a si o Coração de seu Deus, que se compadecia de sua miséria, e queria socorrê-la antes de todas as outras nações! Um dia ela se verá coberta de servos do verdadeiro Deus, tornados pela graça fortes contra todos os inimigos da salvação; ela florescerá como o lírio pela pureza dos costumes e bom odor das virtudes. Ditoso país, por ter recebido, em recompensa de sua hospitalidade, as primeiras graças do Coração de Jesus!


Quanto a nós, que temos a felicidade de ter nascido depois da redenção e no seio da verdadeira religião, não cessemos de pedir a graça de amarmos Jesus com todo o nosso coração, pois que todos os ídolos das afeições terrenas desaparecem da alma quando o amor de Jesus entra nela.
O amor divino nos despoja de tudo. Um grande servo de Deus dizia: O amor para com Deus é um amável roubador, que nos despoja de todas as coisas terrestres. Outro amigo de Deus tinha distribuído aos pobres tudo o que possuía: perguntaram-lhe um dia, quem o havia reduzido a tão grande desapego e pobreza; tirando logo do seu alforje o livro dos evangelhos, disse: Eis aqui Aquele que me tirou tudo.


Numa palavra, Jesus Cristo, sendo o primeiro a nos dar o seu Coração, quer com razão possuir sozinho o nosso; Ele não consente rival. Santo Agostinho refere que o senado romano recusou a adoração a Jesus Cristo, sob pretexto, de que Ele era um Deus soberbo, que quer ser honrado só, sem sofrer que um ídolo seja honrado com Ele. De feito, como Jesus é nosso único Senhor, é com toda a justiça que pretende ser o único objeto de nossas adorações e do nosso mais puro amor.


O ídolo que uma alma devota do Sagrado Coração deve antes de tudo abater, é o amor-próprio, que se insinua por toda a parte, até nas coisas mais santas, representando-nos sem cessar nossa própria glória ou nossa própria satisfação. Este detestável inimigo nos faz perder o merecimento das nossas mais belas obras. Necessário nos é, portanto, combatê-lo sem cessar, contrariando nossos gostos e indignações, por exemplo: privando-nos de tal divertimento, por mais que ele nos agrade, prestando serviço a tal pessoa, Precisamente porque ela nos parece desagradável: tomando tal meio de nos corrigir, indicado pelo confessor, e isto porque nos repugna o emprego deste meio.

Prática


Não cessarei, em todas as minhas orações, de pedir ao Coração de Jesus o grande dom do amor divino. Quando possuir este tesouro, verei minha alma despir-se pouco a pouco de seus defeitos e enriquecer-se com as mais belas virtudes.


Afetos e súplicas


Amadíssimo Redentor meu, quem me dera possuir os corações de todos os homens, e com todos eles vos amar quanto mereceis! Por que, ó Deus de amor, tão poucos há que vos amam nesta terra, na qual derramastes todo vosso sangue por amor dos homens? Eu vim ao mundo, dizeis vós, para acender nos corações o fogo de meu amor, e só desejo vê-lo aceso (Le 12,49). Eu vos peço, pois, que abraseis no vosso amor o meu coração e os de todos os que estão sobre a terra. Ó Deus, todo bondade, todo amor, ó amabilidade suprema, ó amor infinito, fazei-vos conhecer, fazei-vos amar de todos os homens. É verdade que, no passado, mais do que todos os outros, eu fiz pouco caso do vosso amor: mas hoje, esclarecido por vossa luz e ferido por tantos dardos de amor que me haveis lançado de vosso coração ardente de ternura, não quero mais vos pagar com ingratidão, como diz outrora; ao contrário, quero vos amar com todas as minhas forças, quero ser todo abrasado de amor para convosco; este é o meu único desejo. Não busco nem as consolações, nem as doçuras no vosso amor; delas não sou digno, e nem vo-las peço; basta-me ter vosso amor. Oh! Eu vos amo, meu soberano Bem, eu vos amo, meu Deus, meu tudo. Ó Maria, minha esperança, rogai por mim, e atrai-me ao amor do Coração de Jesus.

Oração jaculatória

Coração de Jesus, recebei-me no número de vossos mais
devotos servos.

Exemplo


Matilde de Nédonchel, cognominada o anjo de Jesus, merece que seu nome seja conhecido de todos os amigos do Coração de Jesus. Menina, ela empenhou-se com a Santíssima Virgem para que a preparasse para a primeira comunhão. Jesus esperava esta bendita hora para manifestar-se inteiramente a esta delicada alma. A primeira comunhão de Matilde uniu para sempre seu coração ao Coração do meigo Senhor, cujos atrativos ela descobriu logo no Sacramento do amor. Nada mais celeste do que sua conversão; fora de Jesus, não conhecia nada, ou antes nada queria conhecer, pois resumia tudo em Jesus. As pessoas encarregadas de sua educação não ignoravam os atrativos de seu coração. Quando queriam exercitá-la em produções literárias, davam-lhe por assunto Jesus e seu amor. Então sua pena corria para contar as maravilhas de seu Amado; ela escrevia como um anjo, dizia-se. O amor de Jesus na Eucaristia consumia Matilde. A comunhão frequente constituía a um tempo suas delícias e seu tormento, porque sua humildade era tão grande, que só com temor ela se aproximava do Deus que a atraía irresistivelmente a si. Quando orava diante do Santíssimo Sacramento exposto, logo lágrimas abundantes inundavam seu rosto, fazendo ela o que podia para as ocultar. O pensamento de uma comunhão sacrílega a fazia tremer, e pronta estava a dar alegremente a vida para poupar este ultraje a Jesus. Este amante Salvador quis que sua fiel serva deixasse a vida oculta, para chamar as almas à devoção para com seu adorável Coração. Ela mostrou-se tão zelosa em propagar a Guarda de honra do Coração de Jesus, que mereceu e recebeu o título de primeira zeladora para toda a Bélgica. Tournai foi o principal foco do seu zelo. Num ano ela chegou a inscrever oito mil associados.
Enquanto Matilde se comprazia a propagar a devoção ao Coração adorável de Jesus, este divino Senhor acabava de aperfeiçoar esta alma que Ele não tardaria a arrebatar. Em 1867 ela partiu para Roma com seu pai. Ver a Pio IX, o Pontífice amadíssimo do Coração de Jesus e Maria Imaculada, que felicidade para Matilde! Assegura-se que ela se ofereceu então como vítima para a liberdade do Santo Padre. Sem dúvida agradou muito ao Coração de Jesus esta oferenda, porque poucos dias depois de sua chegada a Roma, Matilde foi acometida da enfermidade que a levou para o céu, na idade de 26 anos, tendo sido na terra modelo completo de virgem cristã.

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