Egito [III]
Vamos ao Egito: ai acharemos o Coração de Jesus desprezando as riquezas do mundo
A riqueza de Deus é infinita e inexaurível, porque não depende de outro: sua riqueza é Ele mesmo. Bem infinito; eis aí porque lhe dizia Davi: Vós sois meu Deus, necessidade nenhuma tendes do que eu possuo (SI 15,2). Pois bem, este Deus tão rico fez-se pobre, a fim de nos enriquecer (2Cor 8,9).
Sim, à bondade do Coração de Jesus competia mostrar sua predileção à pobreza, para fazer reinar o desapego nos nossos corações enfatuados dos bens deste mundo, que não são mais que lodo e pó. Nascido na pobreza, o Senhor foi pobre toda a sua vida, indigente até, conforme a expressão de São Paulo: Egenus. Mas onde Ele sofreu principalmente de pobreza foi no Egito. Quão digna de lástimas é a família exilada, que se vê obrigada a partir para o desterro sem recurso algum! São Boaventura considera compadecido a Maria e José fazendo esta longa e penosa viagem, carecendo de tudo, e levando em seus braços o santo Menino, que muito teve que sofrer por causa de sua pobreza, e pergunta: Onde achavam eles o nutrimento? Onde passavam noite? Mas com que podiam alimentar-se, senão com um pouco de pão duro? Onde podiam passar a noite no deserto, senão sobre a terra nua, ao relento ou sob uma árvore?
Ah! quem encontrasse no caminho estes três grandes personagens, por quem os teria tomado, senão por três pobres mendigos? E no Egito, estrangeiros, sem parentes, sem amigos, quanto não sofreram de sua indigência, durante os sete anos que lá passaram. Segundo São Basilio, com grande custo e que eles arranjaram o necessário pelo trabalho de suas mãos. Ludolfo de Saxe afirma que mais de uma vez o Menino jesus, apertado pela fome, pediu um pouco de pão a sua mãe, e Maria teve de responder que não tinha.
Não somente nosso divino Salvador foi pobre, mas amou a pobreza e tanto a amou, que se pode dizer que ela era a esposa de predileção do Coração de Jesus. A pobreza não existia no céu, diz São Bernardo; ela abundava na terra, mas o homem ignorava seu valor. Que faz o Filho de Deus?
Amando esta pobreza desprezada, quis descer do céu, a fim de esposá-la e no-la tornou por este modo preciosa. Seu fim, nascendo pobre, foi levar-nos, por seu exemplo, a desapegar nossos corações dos bens terrenos, e consagrá-los inteiramente ao amor divino.
Nós todos somos viajantes na terra, onde apenas estamos de passagem, diz Santo Agostinho. Certamente, quem está num lugar só de passagem, não se apega a objeto algum, Pois sabe que deve logo deixar tudo. Ah! Se os homens não esquecessem que são viajantes neste mundo e caminham para a eternidade, quem poderia apegar-se aos bens de cá e pôr-se assim em perigo de perder os do céu? Para que servem os tesouros, as riquezas? Para que servem bens que não podem contentar nosso coração? Que levaremos conosco na morte?
O verdadeiro tesouro da alma é Deus. Ora, Deus não pode ser o tesouro da alma que conserva apego desordenado aos bens da terra. Eis aqui porque Davi fazia a seguinte súplica: Senhor, purificai meu coração aos afetos terrenos (SI 50,12). Uma vez achado este tesouro, pode-se dizer com a esposa dos Cânticos: Achei Aquele que meu Coração ama (Ct 3,4). Perca-se tudo mais: Deus só me basta. Feliz perda, a que sofremos quando sacrificamos tudo, para contentar vosso Coração, ó Deus de minha alma, ó Jesus, soberano Bem, infinitamente mais amável que todos os bens!
Prática
Para honrar a pobreza de Jesus, nada invejarei aos ricos; e se tiver alguma fortuna, não me apegarei a ela, mas farei numerosas obras de caridade.
Afetos e súplicas
Sagrado Coração de Jesus, cheio de amor à pobreza e aos pobres, vossa vida me ensina que na terra eu sou viajante, e que minha pátria é o céu, que me viestes adquirir por vossos merecimentos! Ah, meu Jesus, eu tinha vivido na ingratidão para convosco, porque pouco hei refletido no que fizestes e padecestes por mim.
Quando penso que vós, Filho de Deus, passastes cá no mundo vida tão pobre, como é possível que eu ande atrás dos bens terrenos? O terno Redentor meu, permiti-me viver sempre unido a vós na terra, a fim de ter a felicidade de ticar unido convosco no céu, amar-vos e gozar eternamente de vossa presença. Esclarecei-me, e aumentai minha fé. Bens, prazeres, dignidades, honras deste mundo, que é tudo isto senão vaidade e loucura! A única riqueza, o único tesouro verdadeiro, é possuir-vos, Bem infinito! Feliz aquele que vos ama! Eu vos amo, meu Jesus, e só a vós desejo.
Vós me quereis, e eu vos quero. Se mil reinos tivera, todos de bom grado renunciaria para agradar vosso coração, porque sois meu Deus e meu tudo. Se corri outrora atrás de vaidades e gozos desta vida, agora os detesto, e deploro minha cegueira. De agora em diante, amável Salvador meu, sereis, vós só, meu contentamento, meu amor, meu tesouro. Ó doce Virgem Maria, rogai por mim ao Coração de Jesus que vos ama tanto: pedi-lhe que me enriqueça com seu santo amor, é tudo o que desejo.
Oração jaculatória
Coração de Jesus, tirai de meu coração tudo o que não vos é agradável.
Exemplo
Paulo Rieu, nascido de uma família pobre de Lozère: mostrou desde a infância, tanta piedade e inteligência, que seu Cura se propôs logo a prepará-lo pelo estudo do latim, para o estado eclesiástico. Na idade de oito anos, já ele exclamava: “Oh! que felicidade, se eu pudesse salvar muitas almas!… Quão felizes são os padres, pois trabalham para dar o céu! Mas Deus, que é admirável nos seus santos, quis triturar a Paulo na enfermidade. Este nobre menino perdeu a vista aos dez anos. Pouco depois, perdeu seu pai e sua mãe, e ficou reduzido a condição de mendigo. Era o ano 1862.
Desde então até o dia de sua morte, Paulo — o Cego, como lhe chamavam, não teve outro asilo que o hospital de Mende. Devo, pois, dizia ele, renunciar a ideia de ser padre; mas não quero renunciar à de salvar as almas. Eu orarei, falarei, mendigarei para sua salvação. O pensamento de ser apóstolo, por meio da oração, havia seduzido seu coração: também quantas orações dirigia ele ao Coração de Jesus para a salvação das almas! As únicas palavras: apostolado, oração, Coração de Jesus, santa Igreja, Pio IX, faziam-no exultar, e muitas vezes o ouviam murmurar e repetir: Oh! quanto é belo o apostolado! Oh! quanto bem faz!…. Sim, sim, quem ora apóstolo é!…. Quão feliz sou eu! oremos, oremos; salvemos as almas! Seu diretor declarou que ele rezava mais de quinhentas vezes por dia para a conversão dos pecadores. Pode-se dizer que sua vida era uma oração contínua. Vós ides a missão, dizia ele um dia a seu confessor: como sois feliz! Eu, pobre cego, só posso rezar, mas vou fazê-lo mais ainda! Meu anjo não quer que eu durma; passo então as noites a rezar para a salvação das almas! “Que santo é este Paulo! dizia um enfermo: ele passa a noite em orações”. Em 30 de outubro de 1869, tendo caído gravemente enfermo, apressou-se a pedir os últimos sacramentos, assegurando que o dia de sua morte se aproximava. Paulo expirou tranquilamente em 15 de novembro. Ouviu-se logo, de todas as partes, nas ruas e nas casas de Mende, a mesma palavra sair de todas as bocas: “O santo do hospital morreu”. Dezessete anos apenas viveu na terra.

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