Jerusalém [III]
Vamos a Jerusalém: aí acharemos o Coração de Jesus aceitando a Cruz.
Jesus não esperou que a Cruz lhe fosse imposta pelos algozes; estendendo as mãos, Ele a tomou com pressa, e a pôs sobre os ombros cobertos de chagas. “Vem, diz Ele então, vem querida Cruz, há 33 anos que suspiro por ti e te busco; eu te abraço, eu te aperto contra meu Coração, pois tu és o altar no qual resolvi sacrificar minha vida por minhas ovelhas”.Fizeram sair os condenados, e, no meio deles, vê-se também caminhar para a morte o Rei do céu, o Filho único de Deus, carregado de sua Cruz. Eis aí o Messias, que, há alguns dias, foi proclamado o Salvador do mundo e recebido com tantos aplausos e bênçãos pelo povo! Clamava-se então na sua passagem: Hosana ao Filho de Davi. Bendito aquele que vem em nome do Senhor! (Mt 21,9). E agora, ei-lo que se vai, amarrado, escarnecido e amaldiçoado de todos, com uma cruz nos ombros, morrer como um criminoso. Ó excesso do amor divino! Um Deus que vai ao último suplício para salvar os homens! E haveria um homem que não amasse este Deus?…
Imagina, minha alma, que vês Jesus passar pela rua da amargura. Como um cordeiro que se leva ao matadouro, assim teu amável Redentor se deixa conduzir para a morte (Is 53,7). Já Ele perdeu tanto sangue e está tão enfraquecido pelos tormentos, que dificilmente pode ficar em pé. Contempla-o coberto todo de chagas, com coroa de espinhos na cabeça, pesado madeiro sobre os ombros, e precedido por um algoz que o puxa por uma corda. Vê como ele caminha, o corpo pendido, as pernas trêmulas, escorrendo sangue, e andando com tanta dificuldade, que parece expirar a cada passo. — Aonde ides, ó meu Jesus? — Alma querida, eu vou morrer por ti; não mo impeças; não te peço e recomendo senão uma coisa: quando me vires morto na cruz por ti, lembra-te do amor que te consagro, e não te esqueças de me dar o teu. — O amor, ó doçura, ó paciência do Coração de Jesus. Jesus, caminhando com sua Cruz, convida-nos a segui-lo: Se alguém quer vir após mim, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16,24). Persuadamo-nos aqui do que diz Santo Agostinho; a saber, que toda a vida de um cristão deve ser uma cruz contínua. Mas que cruz? São nossas penas de cada dia. Deus no-las envia como remédio e esperança. Se nos lembramos de ter ofendido a Deus, devemos nos alegrar de ver que ele nos faz padecer neste mundo. O pecado é um abscesso na alma: se a tribulação não vem para vasar o pus, a alma está perdida. Desgraçado daquele que, depois de ter pecado, não é punido nesta vida! É certo que Deus não nos envia a cruz para nos perder, mas para nos salvar; se não sabemos aproveitar-nos dela, nossa é a culpa. O Senhor se queixava a Ezequiel de que os israelitas se haviam tornado ferro e chumbo na fornalha (Ez 22,18). Deus procurava purificá-los e convertê-los em ouro pelo fogo da tribulação; ai! eles tinham-se tornado chumbo. Tais são os pecadores que se impacientam quando são afligidos. A maior desgraça que pode acontecer a um pecador, é não ser castigado na terra: Deus nunca está mais irritado do que quando o deixa em paz; é o médico que abandona o enfermo, porque perdeu esperança de curá-lo. Assim, pois, quando o Senhor nos visita pelas enfermidades, revezes ou perseguições, humilhemo-nos, dizendo com o bom Ladrão: Digna factis recipimus (Lc 23,41). Senhor, eu bem mereço esta cruz, porque vos ofendi. Julguemo-nos então felizes de sermos castigados nesta vida, para escaparmos às penas da outra. Além disto, a esperança do paraíso nos faça amar a cruz. Para ganhar o céu, toda a pena é pouca, dizia São José Calazans. Feliz, exclama São Tiago, aquele que sofre com paciência, porque depois de ter sido provado, receberá a coroa eterna (Tg 1,12). O pensamento do céu encheu de sobre-humana coragem o jovem Santo Agapito, martirizado na idade de quinze anos; enquanto lhe amontoavam sobre a cabeça carvões acesos, dizia ao juiz: Bem pouca coisa é que minha cabeça seja queimada neste mundo, pois há de ser coroada de glória no céu. As tribulações que se sofrem na vida presente, são grande sinal de predestinação; porque todos os predestinados devem ser semelhantes a Jesus Cristo; ora Jesus Cristo não levou sua Cruz, e não nos convida a levarmos a nossa, se queremos ser do número de seus discípulos? Se alguém quer vir após mim, diz ele, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me! (Mt 16,24).
Prática
Irei muitas vezes fazer a Via-Sacra; o Coração de Jesus me ensinará a maneira de santificar as penas da vida
Afetos e súplicas
Ah! Meu divino Redentor, já que, inocente como sois, quisestes ir adiante com vossa cruz e me convidais a vos seguir com a minha, ide, meu bom Mestre, eu não quero separar-me de vós. Se até aqui recusei vos seguir, confesso que fiz mal; dai-me agora a cruz que quiseres, eu a abraço, e com ela quero vos acompanhar até a morte: Pois que! Vós amastes tanto os padecimentos e humilhações para bem da minha salvação; e eu, não os amarei na intenção de vos agradar? Ah! se vós me chamais para vos seguir, certamente quero vos seguir para ir convosco à morte; mas dai-me a força que me é necessária: por vossos merecimentos vo-la peço e espero alcançá-la. Eu vos amo, ó meu amável Jesus; de toda a minha alma vos amo, e não quero mais vos abandonar. Muito tempo andei longe de vós; prendei-me agora ao vosso Coração. Arrependo-me de ter assim desprezado vosso amor; ao presente eu o aprecio mais que todos os bens. Pai eterno, pela cruz que vosso divino Filho levou ao Calvário, dai-me o amor dos padecimentos e viva dor de meus pecados. E vós, terníssimo e afetuosíssimo Coração de meu Jesus, tende compaixão de mim, detesto profundamente os desgostos que vos causei, e tomo a resolução de não amar, doravante, senão a vós.
Oração jaculatória
Ó Soberano Bem, fazei que eu morra completamente a mim mesmo e viva somente para vós.
Exemplo
Uma virtuosa senhora estava à morte. Ai! ela deixava cinco filhos, e todos de menor idade: mas, sendo cristã e piedosa, fez generosamente a Deus o sacrifício de sua vida. Antes de exalar o último suspiro, fez vir à sua presença os filhinhos e lhes disse: “Meus queridos filhos, eu vou morrer; fazei-me uma promessa: em lembrança de vossa mãe, honrai sempre as cinco chagas de Jesus Cristo”. Depois, na simplicidade de sua fé, dividiu com eles seu tesouro: deixou aos dois mais velhos as chagas das mãos, aos dois seguintes, as dos pés; a menor, que se chamava Úrsula, recebeu em herança a chaga do Coração. Ela é que se tornou mais tarde uma das glórias da vida religiosa, e foi canonizada, em 1839, sob o nome de Santa Verônica Giuliani. Esta santa nos ensina que a resignação nos padecimentos é um dos maiores meios de agradar e unir-se ao Coração de Jesus. Depois de haver padecido grandes angústias, ela recebeu a visita do Salvador; ele estava todo coberto de chagas, mas ao mesmo tempo todo resplandecente; porque de cada uma de suas chagas, especialmente das dos pés e das mãos, saíam raios de luz. Na de seu lado sagrado havia um diamante magnífico que ele contemplava com grande complacência, e como ela desejava vivamente saber o que significava este ornamento, Jesus, compreendendo seu desejo, disse-lhe: Reconheces este precioso diamante? — Não, Senhor, respondeu ela, mas penso que alguma alma fiel vos fez presente dele, sofrendo por vosso amor, porque não posso duvidar que esta joia tenha sido tirada do tesouro dos padecimentos. Sabe, tornou então Jesus, que é o fruto do contentamento que me fez experimentar tua resignação durante os dias de provação com que te visitei; cada ato de aceitação, cada ato de abandono à minha vontade na hora do padecimento, vinha ornar e polir, sobre meu Coração, esta joia que considero agora com tanto prazer”. E dizendo isto, inflamou a santa com tão grande desejo de sofrer, que ela exclamou: “Ó meu Deus, sacrificai-me sobre o altar de vossa cruz; eu me ofereço a vós como vítima”. Uma união íntima operou-se desde então entre seu coração e o Coração de Jesus, e ela não quis mais outro tesouro que o dos desprezos e humilhações.

Deixe uma resposta