Gólgota [I]
Vamos ao Calvário: aí acharemos o Coração de Jesus abandonado de todos
São Lourenço Justiniano diz que a morte de Jesus Cristo foi a mais amarga e dolorosa que era possível; porque Nosso Senhor morreu na cruz sem receber o menor alívio. Nos outros pacientes, a pena é sempre mitigada, ao menos por algum pensamento consolador; mas no Coração de Jesus moribundo, não vejo senão dor pura, tristeza pura, sem alívio algum. O que principalmente angústia este Coração tão amante, é o abandono em que se acha; disto se queixa Jesus pela boca do Salmista: Busquei alguém que me consolasse e não encontrei (SI 68,21). Que digo? No momento mesmo em que Ele ia expirar, os judeus e os romanos lançavam contra ele maldições e blasfêmias. É verdade que Maria se conservava ao pé da cruz, a fim de lhe procurar algum alívio, se pudesse; mas esta terna Mãe, por sua aflição, contribuía antes para aumentar a pena de seu Filho do que para diminuí-la. São Bernardo diz que as dores de Maria não fizeram senão afligir mais o Coração de Jesus. Porquanto, Nosso Salvador, vendo a Maria entregue a tão profunda dor, sentia ainda mais vivamente a pena de sua Mãe que seus próprios padecimentos de sorte que se pode dizer que Jesus sofreu mais no seu Coração do que no seu corpo. Ah! quem poderia dizer toda a amargura que encheu os Corações tão ternos de Jesus e Maria, principalmente no momento em que o Filho, antes de expirar, despediu-se de sua Mãe! Eis aqui as últimas palavras que Jesus dirigiu neste mundo a Maria: Mulher, eis aqui vosso Filho! Por esta palavra Filho ele designava São João e nele todos os fiéis.
Jesus, não achando ninguém na terra que o consolasse, elevou seus olhos e seu Coração para seu Pai a fim de lhe pedir consolação; mas o Pai eterno, vendo seu divino Filho sob a forma de pecador, disse-lhe: “Não, meu Filho, não posso te consolar, pois que satisfazes agora à minha justiça por todos os pecados dos homens; justo é que eu te abandone a todos os padecimentos, e te deixe morrer sem alívio”. Então foi que Nosso Salvador proferiu estas palavras: Meu Deus, meu Deus, por que me haveis abandonado?(Mt 27,46). Ó cruel abandono para o Coração de Jesusl…
Paremos aqui um instante para sondarmos a terrível desgraça de uma alma eternamente abandonada de Deus no inferno, em meio de cantos réprobos. Lá, ela se vê afundada num abismo de fogo, vítima de agonia perpétua, porque esse fogo vingador lhe faz experimentar rodos os gêneros de dores. Lá, ela está sob as mãos dos demônios, que, cheios de insaciável furor, só buscam atormentá-la. Lá, mais que pelo fogo e todos os outros tormentos, ela é afligida pelos remorsos de sua consciência, pela lembrança dos pecados cometidos, funesta causa de sua condenação.
Lá, ela se vê para sempre privada de todo meio de sair desse horroroso abismo. Lá, ela se vê banida para sempre da sociedade dos santos e da pátria celeste, para a qual tinha sido criada.Mas, o que mais a aflige, o que constitui seu verdadeiro inferno, é ver-se abandonada de Deus, reduzida a não poder mais amá-lo, e não poder mais pensar nele senão com ódio e raiva de desespero.Tal é a desgraça de que o Coração de Jesus nos quis preservar, aceitando tão cruel abandono na cruz.
Prática
Não deixarei passar dia algum sem recomendar os agonizantes ao Coração agonizante de Jesus.Misericordiosíssimo Jesus, que ardeis em tão abrasado amor das almas, eu vos peço, pela agonia de vosso Santíssimo Coração e pelas dores de vossa Mãe imaculada, purificai no vosso sangue todos os pecadores da terra que estão agora em agonia e hoje mesmo devem morrer. Assim seja. Coração agonizante de Jesus, tende misericórdia dos moribundos (100 dias de cada vez. — 2 de fevereiro de 1850).
Afetos e súplicas
Coração de meu amadíssimo Jesus, é sem razão que vos queixais quando dizeis Deus meu, por que me haveis abandonado? Perguntais por quê Mas por que vos encarregastes de pagar por nós? Não sabíeis que merecíamos, por nossos pecados, ser abandonados de Deus? Com razão, pois, vosso Pai eterno vos abandona e vos deixa morrer num mar de dores e amarguras. O meu Salvador, vosso desamparo me aflige e me consola: aflige-me, porque vos vejo morrer em presa a tantos padecimentos; consola -me, porque me faz esperar que, por vossos merecimentos não ficarei abandonado da divina misericórdia, como merecia por vos ter abandonado tantas vezes, para segui meus caprichos. Ah! se vos foi tão penoso serdes privado Por alguns momentos da presença sensível da divindade, fazei-me compreender qual seria meu suplício, se houvesse de ficar privado de Deus para sempre. Eu vos conjuro por esse cruel abandono que sofrestes por mim, ó meu Jesus, não me abandoneis, principalmente no artigo da morte!
Quando todos me tiverem abandonado, ah! não me abandoneis, vós, meu Salvador: meu Senhor angustiado, sede minha consolação na minha agonia. Bem sei que, se vos amasse sem consolação, agradaria mais a vosso Coração; mas conheceis minha fraqueza: fortificai-me por vossa graça; concedei-me no último momento a paciência e perseverança. Maria, minha Mãe, socorrei-me no momento supremo. Desde já vos entrego meu espírito. Falai por mim ao Coração de vosso Filho: dizei-lhe que tenha piedade de mim na hora de minha morte.
Oração jaculatória
Ó Coração de Jesus tão penetrado de dor na cruz pelos pecados do mundo, dai-me verdadeira dor dos meus pecados.
Exemplo
É um ato da mais apostólica caridade recomendar cada de os moribundos ao Coração agonizante de Jesus. Quantas almas endurecidas podem ser convertidas a Deus por coa salutar prática! Em 1861, foi recebido no hospital de Limoges um moço tuberculoso, cujo estado gravíssimo fazia temer que não durasse muito. Por esta razão delicadamente o convidaram a se confessar. Ele recusou. Alguns dias depois, o capelão quis fazer nova tentativa, mas encontrou mais resistência ainda. Entretanto, o mal continuava a progredir com grande rapidez, e a Irmã, encarregada do cuidado dos enfermos, assustava-se pensando que uma alma tão pouco preparada ia transpor o limiar da eternidade. Ela se pós então a rogar ao Coração agonizante de Jesus e no mesmo empenho fez que orassem outras pessoas. Um dia, achando seu enfermo num estado mais inquietador, ela julgou dever dizer-lhe: “Meu amigo, estais muito mal; de um momento a outro podeis comparecer ante o tribunal de Deus! Que será de vós? A quantos pesares vos expondes por toda a eternidade! Recusais os Sacramentos, isto é, o perdão de vossos pecados. Estai certo que, se persistis nisto, o inferno será vossa sorte. — Minha irmã, vós me fatigais; deixai-me sossegado”. Esta foi a resposta do moço. Viu-se então que só um milagre da misericórdia divina podia convertê-lo. Este milagre foi pedido ao Coração agonizante de Jesus. No dia seguinte, com surpresa geral, o pobre enfermo pediu um padre para se confessar. Convertido por uma graça inefável, ele recebeu os sacramentos com os sentimentos mais edificantes e consoladores. Depois de ter reparado de todo o coração o escândalo que tinha dado aos outros enfermos por sua obstinação, entrou em suave agonia e teve ditosa morte.

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