Gólgota (III)
Vamos ao Calvário: aí acharemos o Coração de Jesus aberto para todos.
Quando os soldados foram quebrar as pernas aos dois ladrões, vendo que Jesus já estava morto, não lhe aplicaram o mesmo tormento. Mas um deles abriu-lhe o lado com a lança, e no mesmo instante correu sangue e água (Jo 19,34). Conforme São Cipriano, a lança foi diretamente ferir o Coração de Jesus Cristo de tal modo que foi dividido em duas partes, segundo o que foi revelado a Santa Brígida. Crê-se por conseguinte, que a água saiu do lado de Nosso Senhor com o sangue, visto que a lança, para atingir o Coração, teve de ferir primeiro o pericárdio, isto é, a membrana que o cerca. Santo Agostinho nota que o evangelista se serviu da palavra abrir: Aperuit, porque então se abriu no Coração do Salvador a porta da vida, por onde saíram os sacramentos, sem os quais não se pode chegar à vida eterna. Diz-se que o sangue e a água que correram do lado de Jesus Cristo, foram a figura dos sacramentos, porque a água é o símbolo do batismo, que é o primeiro dos sacramentos, e o sangue do divino Salvador é contido na eucaristia, que é o maior dos sacramentos. São Bernardo ajunta que Jesus Cristo quis receber a lançada que lhe fez uma chaga visível para nos dar a entendia que seu Coração trazia uma chaga invisível de amor para com os homens. Quem então, conclui este grande santo, não amaria este Coração ferido de amor? Ó meu Redentor, de tal maneira tendes amado os homens, que não é possível que deixe de amar-vos quem pensa nisto, porque vosso amor faz violência a nossos corações, como diz o Apóstolo (2Cor 5,14). Este amor do Coração de Jesus aos homens vem do amor que ele tem a seu Pai; por isso é que ele dizia depois da ceia: A fim de que o mundo saiba que amo a meu Pai, levantai-vos; vamos (Jo 14,31). E aonde queria ir? Morrer pelos homens sobre a cruz. Nenhuma inteligência pode compreender o ardor deste fogo divino no Coração de Jesus Cristo. Se, em vez de uma só morte, necessário lhe fosse padecer mil, Jesus tinha amor bastante para sofrê-las. Se lhe fosse preciso sofrer para salvação de um só homem o que ele sofreu por todos, nosso Salvador não se teria negado a uma só de suas imensas dores. Se, enfim, em lugar de ficar três horas na cruz, necessário The fosse ficar até o dia do Juízo, Jesus amorosamente padeceria ainda este longo suplício. De sorte que o Coração de Jesus amou muito mais do que padeceu. O Coração de Jesus, vossa ternura é muito maior do que todos os sinais que me tendes dado dela. Estes sinais são grandes, porque tantas chagas, tantas feridas, anunciam ardente amor; entretanto só descobrem uma fraca parte da realidade; nós temos visto sair apenas uma centelha deste imenso fogo de amor. A maior prova de amor é dar a vida pelos amigos; isto não bastou a Jesus para exprimir toda a ternura do seu coração. Ele foi morto pelos seus mais cruéis inimigos. Este prodígio de amor assombra as almas santas, e as de si mesmas; faz nascer nelas os abrasados afetos, o desejo do martírio, a alegria nos padecimentos; ele que faz triunfar nas grelhas ardentes, caminhar sobre os carvões acesos como sobre rosas, suspirar pelos tormentos, amar o que o mundo teme, abraçar com alegria o que o mundo aborrece. Porquanto Santo Ambrósio diz que uma alma unida a Jesus na cruz, não acha nada mais glorioso que trazer sobre si as insígnias de seu Esposo crucificado. ó terno Coração de meu Salvador, como poderei vos pagar este amor incomparável que me haveis testemunhados? Justo é que o sangue compense o sangue. Ah! não e ver eu coberto deste sangue divino e cravado nesta cruz. que abraço! Ó cruz santa, recebe-me com Aquele que em ti está cravado para minha salvação. Ó coroa, alarga-te, para que eu possa unir minha cabeça à do meu terno Senhor. Ó cravos crudelíssimos, saí das mãos inocentes de meu Deus, vinde penetrar meu coração de compaixão e amor. São Paulo nos afirma, ó meu Jesus, que vós morrestes para reinar sobre os vivos e sobre os mortos, não pelos castigos, mas pela doçura de vosso amor. Ó conquistador dos corações, a força de vosso amor soube quebrar a dureza dos nossos. Vós abrasastes o mundo inteiro com vosso amor (Lc 12,49). Ó Jesus, vossa cruz é um arco armado para ferir os corações. Saiba o mundo todo que eu tenho o coração ferido… Ó Coração amantíssimo, que fizestes? Viestes para me curar, e me feristes!… Viestes para me ensinar a bem viver, e me tornastes como insensato! … Ó loucura cheia de sabedoria, não viva eu jamais sem vós! Senhor, tudo o que meu olhar descobre na Cruz, convida-me a vos amar; os cravos, os espinhos, o sangue, as chagas, principalmente vosso Coração traspassado, tudo me convida a vos amar e a não vos esquecer jamais.
Prática
Por amor do Sagrado Coração, perdoo desde já a todos os meus inimigos. Minha reconciliação com eles se fará quanto antes possível; procurarei até esquecer as ofensas que eles me fizeram. — Perdoai, e sereis perdoados, diz Jesus (Le 6,37).
Afetos e súplicas
Eu meu compadeço, ó Mãe aflitíssima, da dor pungente que sentistes, quando vistes traspassar o doce Coração de vosso Filho já morto, e morto por esses ingratos que, depois de lhe terem tirado a vida, procuravam ainda atormentá-lo. Por este cruel tormento, cuja pena sentistes, ó Mãe das dores, eu vos suplico me obtenhais a graça de habitar no Coração de Jesus ferido e aberto para mim, nesse Coração, que é o belo asilo, o retiro de amor, onde vão repousar todas as almas que têm verdadeiro amor a Deus, e onde Deus só, enquanto eu aí ficar, será o objeto de meus pensamentos e afetos. Virgem Santíssima, vós podeis alcançar-me esta felicidade, de vós a espero.
Oração jaculatória
Ó Coração aberto, para ser o refúgio das almas, recebei-me.
Exemplo
Santo Atanásio referiu a história seguinte aos Padres do Concílio de Niceia. Um cristão de Beryto, devendo mudar de habitação, esqueceu levar consigo, por descuido, uma bela imagem de Nosso Senhor em tamanho natural. A Providência quis que, depois de sua partida, um judeu fosse habitar na mesma casa, sem dar atenção à imagem que aí ficara. Tendo outro judeu visto a imagem, correu a avisar os rabinos do fato que presenciara. Estes, indignados, foram à casa indicada, e, vendo a imagem de que lhes tinham falado, exclamaram referindo-se a Cristo: “Como outrora ele serviu de joguete a nossos pais, a nós também sirva agora”. E começaram a lhe escarrar no rosto, a lhe dar bofetadas, a ferir a santa imagem, dizendo: “Tudo o que nossos pais fizeram ao Nazareno, façamos à sua imagem”. E então meteram cravos nas mãos e pés do Salvador. Continuando na sua impiedade, disseram: “Consta-nos que lhe deram a beber fel e vinagre; façamos nós também a mesma coisa”. Depois disseram: “Sabemos que nossos pais feriram sua cabeça com uma cana, firamo-la da mesma sorte”. E tomando uma cana, feriram a cabeça do Salvador. Enfim acrescentaram: “Afirmam que nossos pais traspassaram seu lado e seu Coração com uma lança. Façamo-lo também, e juntemos este ultraje aos outros”. E um deles feriu com uma lança o lado do Senhor. Mas, ó prodígio! Eis que grande quantidade de sangue e água corre por esta abertura… Vendo isto, disseram entre si: “Aqueles que adoram o Crucificado falam muitas vezes de curas por ele operadas. Tomemos deste sangue e desta água, levemos à sinagoga, reunamos todos os doentes, reunamos todos os doentes, unjamo-los e veremos se verdade o que dizem”. Eles aproximaram então um vaso do lado aberto pela lança, encheram-no de sangue e água que corriam dele, e o levaram proferindo blasfêmias. E tendo reunido todos os enfermos, ungiram primeiramente, em presença de todos os outros, um paralítico de nascimento, e de repente este se ergue e salta diante dos assistentes: estava perfeitamente curado. A esta notícia comoveu-se roda a cidade, os habitantes se deram pressa em levar para o lugar toda sorte de enfermos: paralíticos, coxos, cegos, leprosos, e à medida que os enfermos eram ungidos, cobravam saúde. À vista disso, todos os judeus exclamaram: “Glória ao Cristo, que nossos pais crucificaram, e nós crucificamos na sua imagem! Glória ao Filho de Deus, autor de tão grandes milagres! Nele cremos”. Eles então pediram o batismo e o bispo, consentindo ao seu desejo, passou muitos dias batizando-os. Santo Atanásio, por esta narração, comoveu todos os Padres do Concílio e fez correr as lágrimas. Desta sorte é que ele mostrou que se deve honrar as santas imagens, e que elas eram a fonte das maiores graças. (Labbe. Conc. t. 7). Imitemos nosso divino Mestre, cujo coração foi tão benfazejo para com seus mais cruéis inimigos, e demos, como ele, o bem pelo mal.

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