O tabernáculo [I]
Aproximemo-nos do tabernáculo: aí acharemos o Coração de Jesus esperando de nós uma visita de reconhecimento
Agradecer a Jesus Cristo o grande dom que ele fez aos homens, dando-lhes a Eucaristia, reparar as injúrias que ele recebe neste Sacramento, enfim, amá-lo, em compensação do culto que muitos deixam de dar-lhe nas igrejas, tal é o tríplice fim para o qual o Salvador mesmo quis que a festa de seu Sagrado Coração fosse instituída. Mas uma coisa digna de ser notada, é que ele prometeu derramar com abundância as riquezas de seu Coração sobre os que Ilhe tributassem esta tríplice homenagem, não somente no dia mesmo desta festa, mas ainda em todos os outros dias. E que é necessário para merecer os efeitos desta promessa? É necessário visitá-lo no Santíssimo Sacramento, nos três fins acima ditos. Que amor e ações de graças devemos ao Coração de Jesus, por ter instituído este adorável Sacramento! Sem esta amorosa invenção, quão triste seria nosso desterro! A quem nos dirigiríamos nos males de que esta vida está cheia? Onde acharíamos um Coração tão bom para se compadecer das misérias de todos, tão poderoso para consolar todos os que implorassem seu socorro! Jesus só pode dizer e diz com efeito: Vinde a mim, vós todos que gemeis sob o fardo de vossas penas, e eu vos alentarei (Mt11.28). Ora, esta palavra, esta boa palavra saída do bom tesouro do seu Coração (Lc 6,45), Ele no-la repete continuamente do fundo do seu tabernáculo. Porque lá está este Coração tão amável e tão amante; lá está, esperando, chamando e acolhendo todos aqueles que o vêm visitar. Meus olhos e meu Coração estarão ali em todos os tempos (1Rs 9,3). Consoladora promessa, cujo cumprimento Jesus nos mostra no Sacramento do altar, onde ele está por nós noite e dia! Lembremo-nos aqui do doloroso momento, em que o Redentor disse adeus a seus discípulos antes de ir para a morte. Eles choravam pensando que deviam se separar de seu Mestre querido; mas Jesus os consolou por estas palavras, dirigidas também a todos os fiéis: “Meus Filhos, eu vou morrer, para vos provar o amor que vos tenho; mas, ainda morrendo, não quero vos deixar sós; enquanto estiverdes sobre a terra, quero ficar convosco: Ecce ego vobiscum sum. Eu vos deixo na Eucaristia meu corpo, minha alma, minha divindade, e este Coração que tanto amor vos tem”. Lá está pois o Coração de Jesus; mas por quanto tempo? Ah! é o Coração de um amigo fiel; Ele lá está dia e noite; lá estará até o fim do mundo: Usque ad consumationem saeculi (Mt 28,20). Mas, ó Coração divino, para que ficar em nossas igrejas durante a noite, pois fecham-se as portas e ficais só? Bastante era que ficásseis somente durante o dia. Não, responde Ele, quero ficar também de noite, sempre esperando, a fim de que, de manhã, quem me buscar me ache logo sem me esperar. A esposa sagrada ia buscando por toda parte seu Amado, e perguntando àqueles que encontrava, se não o tinham visto: Não vistes Aquele a quem ninha alma consagra seu amor? Não o achando, erguia a voz e exclamava: O meu Amado, fazei-me saber onde estais (Cr 1,6). Então, isto é, antes do nascimento do Salvador, a esposa, por mais que procurasse, não podia achar o esposo, porque não havia ainda o Santíssimo Sacramento; mas agora, desde que uma alma queira achar a Jesus Cristo, basta-lhe ir a uma igreja onde repousa a divina Eucaristia, e aí achará seu Amado que a espera, com o Coração inflamado e desejoso de a ver chegar-se para junto dele. Ele lá está!… Mas quem então o retém entre nós? Quem o encadeia? E o amor que ele nos tem. Porque o amor, diz Santo Agostinho, é uma cadeia de ouro. São Pedro de Alcântara, em êxtase diante deste amor inefável, dizia: “Língua nenhuma poderia exprimir a grandeza do amor que Jesus Cristo tem a cada uma das almas que estão em graça; por isso, este terno Esposo, deixando a terra, não pôde sofrer que sua separação lhe fizesse esquecer a esposa querida, e deixou-lhe como lembrança este divino Sacramento, onde ele mesmo reside. Este bom Salvador, para que sua esposa amadíssima se lembrasse sempre dele, não quis deixar outro penhor senão sua divina pessoa realmente presente na Eucaristia”. O Coração de Jesus é assim nosso cativo, como dizia Santa Teresa; o tabernáculo é sua prisão, e o amor é sua cadeia!
Prática
Visitarei todos os dias o Santíssimo Sacramento, dizendo comigo: Que! O Coração de Jesus faz consistir suas delícias em estar comigo, e as minhas não serão estar junto do Coração de Jesus?!
Afetos e súplicas
Senhor, muito nos tendes amado; não bastava ficardes neste augusto Sacramento durante o dia, quando podeis ter adoradores de vossa divina presença para vos fazerem companhia? Que necessidade havia de ficardes ainda a noite toda, quando as igrejas estão fechadas e os homens se recolhem às suas casas, deixando-vos inteiramente só? Ah! eu vos compreendo: o amor vos tornou nosso prisioneiro; o terno amor que nos tendes, enlaça vosso Coração com prisões tão fortes, que não vos permite separar de nós, nem de dia nem de noite. Ah! amabilíssimo Salvador, este só sinal de vossa afetuosa ternura deveria obrigar todos os homens a ficarem continuamente em adoração diante do santo cibório, a ponto de não poderem ser arrancados daí senão a força; ainda assim não deveriam separar-se senão deixando ao pé do altar todos os afetos de seus corações para com este Deus feito homem, que se digna ficar só e encerrado num pequeno tabernáculo, todo olhos para velar sobre nossas necessidades e acudir a elas, e todo coração para nos amar, esperando o dia para receber a visita de suas almas queridas. Sim, meu Jesus, quero vos satisfazer; a vós consagro toda a minha vontade e todos os meus afetos. Tido o que existe em mim, ó Redentor meu, tudo cedo a vosso amor: tomai posse de minhas satisfações, prazeres, vontade, enfim de tudo. O amor, 6 Deus de amor, reinai em mim, triunfai de todo o meu ser; destruí, sacrificai em mim tudo o que não é para vós. O meu amor, não permitais que minha alma se apegue ainda às criaturas. Eu vos amo, meu Deus, eu vos amo, e não quero amar senão a vós para sempre.
Oração jaculatória
Ó Maria, quão feliz sois por terdes tido o Coração perfeitamente conforme ao Coração de Jesus.
Exemplo
Um dia em que Nosso Senhor manifestava as riquezas do seu Coração a Santa Margarida Maria, disse-lhe estas palavras, mostrando-lhe as chamas do seu Coração: Eu tenho ardente sede de ser honrado pelos homens no Santíssimo Sacramento, e não acho quase ninguém que se esforce, como desejo, para matar minha sede, usando para comigo de algum retorno. —Maria Eustella, chamada com razão o Anjo da Eucaristia, morta em Saint-Palais de Saintes, em 1840, foi uma dessas almas que não vivem senão para consolar Jesus Cristo abandonado no santo tabernáculo. Ela exprime em suas cartas sentimentos dignos dos serafins: “Ó Santa Eucaristia! exclama ela, ó Santa Eucaristia! quanto me comprazo em repetir estas palavras! Quantas delícias experimento nisto!… No Sacramento adorável da Eucaristia é que se acha o amor! Nesta fonte sagrada, cujas águas correm até a vida eterna, é que devemos ir estancar nossa sede; neste tabernáculo é que devemos ir buscar o Cordeiro imaculado que só pode dar à nossa alma a brancura de sua inocência primitiva. Pobre Jesus, ele não é amado! Não é conhecido! Ó cegueira! Ó estupidez do homem! Quem me dera poder submeter todos os corações ao jugo do santo Amor!… Ó Santa Eucaristia! tu me roubas a mim mesma; tu me transportas já na região celeste. Quanto eu te amo! Tu és minhas delícias; tu me fazes morrer, para melhor reviver. Deixa-me expirar a teus pés; a morte é lucro para mim”. Quem não admirará esta linguagem numa pobre costureira que não conheceu outra escola que o Coração de Jesus! Eis aqui o que ela escrevia a seu diretor: “Eu vi este amável Salvador, há alguns dias, no ostensório, mostrando-me seu Coração divino… Ó Jesus! Dai-me vosso espírito, dai-me vosso Coração, dai-me vosso amor!” Ao pé do tabernáculo é que se aprende a ciência do amor! Esta magnífica palavra de Maria Eustella nos indica aonde devemos ir para aprender a ciência de amar a Jesus Cristo, única ciência necessária. Escutemos ainda uma vez esta alma seráfica: “Ó Sacramento da Eucaristia, única ambição de meu coração, objeto de tudo o que penso, de tudo o que creio, de tudo o que quero, quem me dera fazer-vos conhecido! Querido bom Mestre, ó Jesus, é muito, é muito para este lugar de exílio! Parai um pouco essas delícias inefáveis. Ó meu celeste amigo, vós me encadeais de algum modo nesta terra estrangeira; mas é ao pé dos vossos altares. Eucaristia! O doce coração de minha alma! Ó minha vida! Alma de minha vida! Eucaristia! Quão deliciosamente ressoa dentro de mim este nome”. Ela terminava ordinariamente suas cartas por um convite de reunião no Coração de Jesus. Consolem-se as pessoas simples; se elas quiserem, podem lutar de amor com os serafins!…

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