O tabernáculo [I1]
Aproximemo-nos do tabernáculo: aí acharemos o Coração de Jesus esperando de nós uma visita de reparação.
Oh! quem me dera ter o coração, a voz e as lágrimas de um São Francisco de Assis, para bradar por todo o mundo: “O amor não é amado! o amor não é amado? Não há pena mais cruel para um coração amante do que ver seu amor desprezado e seus benefícios pagos com ingratidão. Se o Coração de Jesus pudesse ainda padecer agora como na sua vida mortal, a maior parte de nossos tabernáculos seriam para ele outros tantos Jardins de Oliveiras. Notai os extremos de seu amor para com os homens! Por causa deles, o divino Coração chegou a velar no Santíssimo Sacramento sua majestade, a obscurecer sua glória; chegou a consumir, aniquilar sua vida sagrada; numa palavra, sobre os altares, ele parece não ter outra ocupação que amar os homens. Mas que reconhecimento lhe testemunham esses ingratos? Sim, sua ternura é excessiva, pois ele preferiu nossa vantagem à sua própria dignidade. Não sabia Jesus então a que desprezos devia expô-lo esta invenção de seu amor? Nós somos testemunhas, e ele bem o viu antes de nós, a maios parte dos homens não o adoram e não querem reconhecê-lo por aquilo que ele é neste Sacramento. Mais de uma vez, sabemos, estes mesmos homens ousaram calcar aos pés as hóstias consagradas, lançá-las na terra, na água, no fogo. Vemos ainda que grande número daqueles que creem nele, ó céus! longe de repararem tantas injúrias, por suas piedosas homenagens, aumentam suas penas por suas irreverências nas igrejas, ou ao menos o abandonam só sobre os altares, algumas vezes até sem lâmpada e sem os ornamentos necessários. A esta lembrança, um grito deve repercutir no fundo de toda alma generosa: Reparação! Reparação! Mas qual é o meio mais eficaz de reparar tantos ultrajes? É prostrarmo-nos muitas vezes ao pé dos altares, e rogarmos ao Coração de Jesus a conversão daqueles que o ofendem. Com efeito, quando um pecador se converte, quando lava seus pecados passados nas lágrimas de seu arrependimento, e começa uma vida toda nova, faz a mais bela das reparações Àquele que veio entre nós, não tanto para os justos como para os pecadores (Lc 5,32), Àquele cuja glória é salvar as almas. O Senhor dizia um dia a Santa Maria Madalena de Pazzi: Almas queridas de meu Coração, a vós é que confiei a cidade de Refúgio (isto é, a Paixão, cuja memória a Eucaristia renova continuamente) a fim de que saibais aonde podeis vir em socorro às minhas criaturas; ide então e daí vosso socorro a essas pobres almas que perecem, oferecendo vossa vida por elas. Daí, inflamada em ardente zelo, a santa oferecia a Deus cinquenta vezes por dia, o sangue do divino Redentor pela salvação dos pecadores, e não deixava quase passar uma hora do dia sem orar por eles; muitas vezes ainda, ao bater meia noite, ela ia aos pés do Santíssimo Sacramento interceder em favor deles. Apesar de tanto fervor encontraram-na um dia toda em lágrimas, e como lhe perguntassem a causa de sua dor, respondeu: Choro, porque me parece que não faço nada pela salvação dos pecadores. Ela se oferecia muitas vezes como vítima, chegando a dizer: Senhor, fazei-me morrer e reviver bastantes vezes para satisfazer a vossa justiça em favor deles. Assim é que esta grande santa compreendia a reparação dos ultrajes feitos ao Coração de Jesus Cristo.Reparação! Reparação! Tal deve ser o grito de toda alma que se lembra de ter sido outrora ingrata para com Jesus no seu Sacramento. E se, no futuro, tivéssemos ainda a desgraça de lhe causar mágoa, excelente meio de consolá-lo seria irmos, com inteira confiança, lançar-nos a seus pés para lhe pedirmos perdão. O Coração de Jesus é fonte aberta para todos os homens, fonte onde podemos, quantas vezes quisermos, purificar nossas almas de todas as manchas que contraímos cada dia pecando. O mais pronto remédio nas faltas em que cai o cristão, é recorrer logo ao Sagrado Coração de Jesus no Santíssimo Sacramento.
Prática
Nas minhas visitas de cada dia ao Santíssimo Sacramento farei reparação ao Sagrado Coração de Jesus pelos pecados que se cometem no mundo, principalmente por tantos sacrilégios, que nascem quer da falta de sinceridade na confissão; quer da falta de verdadeira conversão. Direi muitas vezes, como reparação, a seguinte Oração jaculatória: Meu Jesus, misericórdia!
Afetos e súplicas
Jesus, meu amabilíssimo, dulcíssimo e amadíssimo Salvador, vida, esperança, tesouro, único amor de minha alma, quanto vos tem custado ficar entre nós neste Sacramento mesmo, quantos ultrajes tendes sofrido para nos dardes o benefício de vossa presença! Tudo cedeu ao vosso amor e ao desejo que tendes de ser amado de nós. Ah! meu terno Salvador, quem me dera poder lavar com minhas lágrimas e até com meu sangue esses tristes lugares em que vosso Coração cheio de amor recebeu tantos ultrajes no Santíssimo Sacramento! Mas se esta consolação não me é concedida, desejo ao menos, Senhor, e proponho visitar-vos muitas vezes para vos adorar, em compensação dos desprezos que recebeis da parte dos homens neste divino mistério. Dignai-vos, ó Pai eterno, acolher esta fraca homenagem que vos rende hoje o mais miserável dos homens, em reparação das injúrias feitas a vosso divino Filho sobre nossos altares: aceitai-a, dignando-vos uni-la à honra infinita que Jesus Cristo vos deu na Cruz, e vos dá ainda todos os dias no seu Sacramento. O meu Jesus, pudera eu inspirar a todos os homens o mais ardente amor para com vosso Sacramento de amor.
Oração jaculatória
O meu Salvador, em amor para convosco ardam todos os corações, como o Vosso arde em amor para conosco!
Exemplo
Quem não tem ouvido falar do santo pobre de Jesus Cristo, Bento Labre? Desprezando os bens da terra, ele se enriqueceu com as mais belas virtudes e possuiu o maior dos tesouros, o amor divino. O Coração de Jesus no Santíssimo Sacramento e na Paixão, ocupava grande lugar nas suas devoções. Ele quase não podia desapegar-se do Deus de nossos altares. Cinco ou seis horas de adoração contínua bastavam apenas para saciar seu fervor. Encontravam-no por toda a parte onde se fazia, em Roma, a exposição do Santíssimo Sacramento, de sorte que, quando queriam falar dele, e não sabiam o seu nome, o designava pelo nome do pobre das quarentas horas. Quando ele adorava a Jesus no seu Sacramento, viam-no fitar seus olhos para a hóstia santa, e experimentar tal alegria interior que seus lábios se contraíam numa espécie de sorriso mais de anjo que de homem: “Diante do Santíssimo Sacramento, Labre vê Jesus com os olhos do corpo”. Ele gostava de ajudar à Missa e acompanhar o santo viático. Mas sua maior delícia era a comunhão. Com que ardores ele se preparava para este ato! Escapavam-lhe então ardentes aspirações, como estas: “Ó meu Deus!… meu tudo!… único amor de meu coração!… Ah! vinde… eu vos desejo… por Vós suspiro…. a menor de mora me parece mil anos… vinde, Senhor Jesus!” Ele tinha verdadeiramente fome e sede desta comida e desta bebida celeste. Seu desejo era ter mil corações para oferecê-los a Jesus; ao menos, procurava modelar seu coração pelo de Jesus; trabalhava para banir dele tudo o que não era Jesus a fim de que só Jesus lá reinasse como senhor soberano. E se lhe vinha ao espírito o pensamento de sua indignidade, esforçava-se para suprir pela oferenda dos afetos com que o tinham recebido Maria, sua santa Mãe, os apóstolos e santos. Eu não quero, dizia ele, ter outro coração que o Coração de Jesus; e era isto o que o levava a receber Aquele que disse: Quem come minha carne, mora em mim e eu nele. Uma de suas devoções especiais era colocar-se cada manhã no Coração de Jesus; aí, achava o contentamento em meio dos padecimentos, asilo contra os assaltos do inferno, refúgio contra as tentações do mundo corrompido. Aí, ele podia dizer como São Paulo: Para mim, Cristo é minha vida.
Vie, par Desnoyers.

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